O berço sindical do presidente voltou a ficar cheio para recebê-lo. Os mais jovens, porém, eram minoria. A CartaCapital, alguns deles apontaram os desafios para essa reconquista


O presidente Lula durante o lançamento oficial de sua campanha no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). Créditos: Ricardo Stuckert

Porto Velho, RO - O ato de lançamento da campanha do presidente Lula (PT), neste domingo, 16, buscou falar diretamente a um eleitorado com o qual o petista tenta reconstruir pontes: os jovens. Para isso, Lula recorreu à própria biografia — a infância marcada pela pobreza, a ascensão como liderança sindical combativa e uma trajetória que, em sua origem, desafiava as estruturas de poder.

A tentativa de recuperar essa imagem “antissistema”, porém, expôs uma contradição. Integrantes da geração Z, formada pelos nascidos entre 1997 e 2012 e hoje na faixa dos 14 aos 29 anos, eram minoria entre os militantes que lotaram o Estádio Primeiro de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo.

Foi ali que as históricas greves dos metalúrgicos, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, ajudaram a desafiar a ditadura militar e projetaram Lula para a política nacional. De volta ao berço sindical, o presidente fez um discurso carregado de referências à própria trajetória, defendeu a necessidade de impedir o retorno da extrema-direita ao poder e prometeu manter, em um eventual quarto mandato, a aposta na geração de empregos e nos investimentos em saúde e educação.

O passado, no entanto, talvez não seja suficiente para conquistar uma geração que cresceu vendo o PT ocupar o Palácio do Planalto.

A mais recente rodada da pesquisa Quaest, divulgada na última sexta-feira, ajuda a dimensionar o desafio: Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) aparecem empatados, com 41% das intenções de voto, entre os eleitores de 16 a 34 anos.

Jovens ouvidos por CartaCapital, todos militantes e apoiadores de Lula, apontaram obstáculos para uma adesão mais ampla da juventude à agenda progressista — lacunas que, na avaliação deles, vêm sendo exploradas pela extrema-direita. A pedidos, eles foram identificados apenas pelo primeiro nome.

Grazieli, de 21 anos, enfrentou 12 horas de estrada desde Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, para participar do ato. À reportagem, afirmou que sua posição política está diretamente relacionada à própria realidade social e familiar e ao fato de ser uma mulher negra e LGBT. Ainda assim, reconhece que é exceção entre os amigos.

“Não sei em que momento Lula perdeu a conexão com a juventude. Mas vejo que muitas pessoas conseguiram comprar a atenção da juventude com mentiras. É o caso do Renan Santos”, disse, em referência ao candidato à Presidência pelo Missão.

Wilson, de 19 anos, militante da Juventude do PT, vê uma tarefa semelhante: disputar uma geração politicamente formada durante a ascensão do bolsonarismo. Na avaliação dele, parte desses jovens “abraçou uma agenda conservadora, disfarçada de discurso religioso, mas vestida de preconceitos”.

Ainda assim, Wilson acredita que a própria trajetória de Lula pode funcionar como ponto de reconexão — desde que consiga ser traduzida para uma geração distante das greves do ABC e da fundação do PT.

É justamente aí que Pedro, de 21 anos, identifica um problema. Indígena da comunidade Nhande Vae’ Eté, de Mauá, no ABC Paulista, ele teme que a tentativa de apresentar Lula como um candidato “antissistema” produza pouco efeito entre jovens que cresceram associando o PT ao próprio exercício do poder.

“O jovem da periferia não entende que o sistema é algo além do governo. Eu, como jovem periférico, sempre vi o PT no governo, ou seja, na gestão do sistema. A juventude que não tem tanto conhecimento político tende a crer que o PT é o sistema”, afirmou. “Acredito que essa é a dificuldade do Lula em relação à juventude.”

A ressalva não diminui, para Pedro, a preocupação com uma eventual volta da extrema-direita ao Palácio do Planalto. “O governo Bolsonaro foi o período em que nós, povos indígenas, ficamos mais desassistidos.”

Priscila, de 21 anos, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), elogiou medidas do terceiro governo Lula que, em sua avaliação, recolocaram os jovens no Orçamento. Citou como exemplo o Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro a estudantes do ensino médio público criado para combater a evasão escolar. Ainda assim, disse sentir falta de um horizonte mais amplo para a juventude.

A percepção é compartilhada por Gabrieli, estudante de Biomedicina pelo ProUni.

“Neste governo, Lula já ajudou os estudantes a não precisarem sair da escola para trabalhar e ajudar os pais. Um próximo governo pode ser ainda melhor”, afirmou.

Thais, também estudante, direciona a cobrança para outra frente. Para ela, falta uma sinalização mais clara sobre como os jovens poderão produzir cultura, financiar projetos e transformar vocações artísticas em perspectivas reais de vida.

“A geração Z sente muita falta de conseguir desenvolver cultura. O presidente deveria incentivar essa área e também os jovens artistas, para que eles possam se desenvolver”, avaliou.

Se Lula pretende recuperar entre os mais jovens a imagem do operário que enfrentou o sistema, terá de convencer uma geração que não viveu aquela história — e que, durante boa parte da própria vida, conheceu o PT justamente como peça-chave do sistema político brasileiro. Talvez não baste contar de onde Lula veio. A disputa passa também por mostrar aonde um novo governo pretende levá-los.

Fonte: Carta Capital