Cerco de Alexandre de Moraes impede que aliados visitem ex-presidente em sua casa, em Brasília; caberá a Michelle Bolsonaro ser a ‘garota de recados’ - O ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Mateus Bonomi/AFP

Porto Velho, RO - A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a prisão domiciliar temporária do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) com base em seu estado de saúde, impõe um novo obstáculo à articulação política do bolsonarismo em ano eleitoral. Ao restringir as visitas a familiares, advogados e médicos, o juiz fechou o acesso de aliados ao ex-presidente em um momento considerado estratégico para a definição de candidaturas, especialmente ao Senado.

Na prática, a medida interrompe uma dinâmica que vinha sendo explorada por Bolsonaro durante o período em que esteve custodiado em Brasília. Primeiro na Superintendência da Polícia Federal e, depois, na Papudinha, o ex-presidente transformou os encontros em reuniões de articulação política.

Durante a passagem pela PF, as visitas já eram limitadas a familiares, advogados e médicos, mediante autorização judicial. Entre os sempre presentes estavam a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e os filhos.

Foi na transferência para a Papudinha, em janeiro, que Bolsonaro passou a receber aliados com maior frequência. Ao longo de cerca de dois meses, o local se consolidou como um ponto de encontro para lideranças da direita que buscavam aval para disputar cargos em 2026.

Entre os visitantes registrados estão o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), os senadores Carlos Portinho (PL-RJ) e Wilder Morais (PL-GO); os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG), Sanderson (PL-RS), Cabo Gilberto Silva (PL-PB) e Hélio Lopes (PL-RJ); além de nomes como Guilherme Derrite (PP-SP), Anderson Moraes (PL-RJ) e Jorge Oliveira, ministro do Tribunal de Contas da União. Também esteve no local o ex-secretário Luiz Antonio Nabhan Garcia, entre outros aliados.

Os encontros foram seguidos, em alguns casos, por anúncios de pré-candidaturas e definição de estratégias eleitorais. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a comunicar decisões atribuídas ao pai, como sua própria indicação à Presidência da República.

Esse fluxo foi interrompido com a decisão de Moraes. Na prisão domiciliar, Bolsonaro está proibido de receber qualquer visitante que não se enquadre nas exceções definidas pelo STF. Têm acesso liberado apenas seus advogados, médicos e familiares diretos.

Entre os familiares autorizados estão os filhos Flávio, Carlos e Jair Renan, que podem visitá-lo em dias e horários pré-determinados. Michelle Bolsonaro, por residir na mesma casa, não precisa de autorização para contato. Já os advogados podem comparecer diariamente, mediante agendamento, enquanto os médicos têm acesso contínuo.

Todas as demais visitas estão suspensas. A justificativa apresentada pelo ministro foi a necessidade de evitar riscos de infecção durante a recuperação de um quadro de broncopneumonia.

O isolamento imposto pela decisão tem impacto direto na estratégia eleitoral dos bolsonaristas. Sem poder receber lideranças e pré-candidatos, Bolsonaro perde o principal canal de influência direta sobre a montagem de chapas e alianças.

Nesse cenário, a interlocução tende a ser feita de forma indireta, com destaque para Michelle Bolsonaro, que além de conviver com o ex-presidente, é apontada como pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal. A limitação de contatos, no entanto, também atinge sua própria articulação, já que restringe a circulação de lideranças no entorno do casal em Brasília.

Com a domiciliar inicialmente prevista por até 90 dias, período que pode coincidir com a fase que antecede as convenções partidárias, o bloqueio de acesso a Bolsonaro pode se estender justamente no momento em que partidos formalizam candidaturas, ampliando o impacto do chamado “cerco” judicial sobre o calendário eleitoral da extrema-direita.

Fonte: Carta Capital