
O modelo responde por quase 90% da receita da indústria fonográfica, mas enfraquece a base criativa, segundo a ABMI - Foto: Divulgação
Porto Velho, RO - O Global Music Report 2026, da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, aponta que o streaming já responde por 87,6% de toda a receita fonográfica brasileira. O modelo se consolida, mas a Associação Brasileira da Música Independente, a ABMI, avalia que que esse crescimento é “assimétrico e pressiona a base que sustenta a diversidade criativa do País”.
O presidente da ABMI, Felippe Llerena, explica que os dados de remuneração ajudam a dimensionar as distorções no setor. De acordo com o Music Streaming Royalty Calculator, o Spotify paga, em média, entre 0,003 e 0,005 dólar por stream (execução), enquanto o Apple Music opera na faixa aproximada de 0,007 a 0,01.
“Mesmo considerando variações contratuais e diferenças entre territórios, a matemática é simples: um artista que receba 0,004 dólar por reprodução precisa de 250 mil plays para alcançar 1.000 dólares brutos, antes de qualquer divisão com distribuidores, selos ou parceiros”, afirma Llerena.
Ele destaca que o mercado depende de investimentos em marketing e que isso favorece quem já domina a audiência global das plataformas. O Spotify anunciou ter repassado mais de 11 bilhões de dólares à indústria musical em 2025, um montante recorde.
“O crescimento, portanto, é inegável. O que permanece inalterada é a lógica de distribuição, que privilegia catálogos com forte investimento e presença consolidada em playlists de grande alcance”, ressalta o presidente da ABMI.
A dinâmica dos algoritmos também contribui para ampliar a concentração, segundo Llerena. “Quem investe mais em mídia, tráfego pago e produção audiovisual tende a gerar maior engajamento inicial. Esse desempenho retroalimenta recomendações automáticas e amplia a distância para quem opera com orçamento limitado.”
O resultado, de acordo com a ABMI, é uma curva de concentração em que poucos capturam parcelas crescentes da receita, enquanto milhares de artistas dividem frações cada vez menores, o que compromete inclusive a renovação de repertório.
O Censo 2025/26 da Data SIM (um núcleo de pesquisa de mercado) indica que o chamado ecossistema ampliado da música, que inclui shows e festivais, movimenta por ano cerca de 94 bilhões de reais no Brasil.
Llerena explica que essa cadeia depende da vitalidade da produção fonográfica para renovar line-ups de festivais, revelar artistas e manter a diversidade que atrai público. “Se a base criativa enfraquece porque a remuneração digital não cobre custos mínimos de produção, o efeito se espalha por toda a cadeia, do pequeno festival regional às grandes turnês.”
Assim, enfatiza o presidente da ABMI, modelos alternativos de pagamento têm entrado em discussão, como o user-centric, no qual a assinatura de cada usuário é distribuída apenas entre os artistas que ele efetivamente escuta, em vez de ser diluída no total de reproduções da plataforma.
“Esse formato poderia reduzir a concentração de renda sem comprometer a viabilidade econômica do streaming”, avalia. O debate, conforme a entidade, já ocorre em mercados europeus e começa a ganhar espaço em outras regiões.
Fonte: Carta Capital


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