Professor afirma que a democracia brasileira sobreviveu devido à resposta de atores políticos como a oposição e o STF


Para cientista político, ações no fim do mandato do ex-presidente constituem tentativa de golpe de Estado

Porto Velho, RO - Condenado pelo STF e preso, Jair Bolsonaro vai ser capaz de emplacar um sucessor —e a direita vai conseguir ter um candidato competitivo nas eleições deste ano? Depois do ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, o que esperar de uma possível interferência do governo de Donald Trump no processo eleitoral brasileiro?

No primeiro episódio de 2026 do Ilustríssima Conversa, o cientista político Leonardo Avritzer traça alguns cenários para a política brasileira nos próximos meses.

Para ele, professor aposentado da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e professor visitante da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a defesa da democracia nunca teve mais força na história do país, mas o regime democrático brasileiro continua em disputa —como sempre esteve nos últimos cem anos.

Esse é o fio condutor de "O Golpe Bateu na Trave" (Autêntica), livro mais recente de Avritzer. Na obra, o pesquisador discute por que as ações de Bolsonaro nos últimos meses do seu mandato devem ser entendidas como parte de uma tentativa de golpe de Estado e aponta os motivos de a ruptura democrática não ter acontecido, destacando o papel da oposição, dos militares e do STF.

Leonardo Avritzer, cientista político e autor de 'O Golpe Bateu na Trave' - Divulgação
Nesta entrevista, o cientista político também aborda os valores antidemocráticos arraigados em uma grande parcela da sociedade brasileira, que explodiram no 8 de Janeiro.

Avritzer considera a invasão da sede dos Poderes em Brasília um evento bastante particular na história do país, que mostra a capacidade de mobilização popular para uma insurreição construída pelo bolsonarismo.

A grande incógnita da política brasileira em 2026 é como será o bolsonarismo sem Bolsonaro. A gente sabe que esse trabalho do Bolsonaro –juntar militares, mercado financeiro, conservadorismo do interior do Brasil, diferentes lideranças, diferentes partidos à direita– é quase uma ação única, ou seja, é muito provável que o Bolsonaro não tenha sucessor.

Do lado do governo Lula, a gente não sabe qual nível de pressão o Brasil vai sofrer neste momento pós-operação americana na Venezuela. Os diferentes episódios que podem vir a ocorrer na América do Sul ou nas Américas como um todo podem influenciar o cenário eleitoral

O Ilustríssima Conversa está disponível nos principais aplicativos, como Apple Podcasts e Spotify. Ouvintes podem assinar gratuitamente o podcast nos aplicativos para receber notificações de novos episódios.

O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.

Já participaram do Ilustríssima Conversa o arquiteto Gabriel Weber, autor de livro sobre a chamada linha do inferno do Rio de Janeiro, Rosane Borges, que discutiu como mulheres negras enfrentam o imaginário racista, a chef Bel Coelho, autora de obra sobre a cultura alimentar da amazônia, o sociólogo Reginaldo Prandi, pesquisador das religiões afro-brasileiras, a jornalista Marina Rossi, que apontou os impactos ambientais da pecuária na amazônia, o psicanalista Leopold Nosek, crítico da ideologia do empreendedorismo e da meritocracia, o diplomata Ernesto Mané, que afirma que o colonialismo e o racismo se entrelaçaram com a sua história familiar, o jornalista Jamil Chade, que debateu a corrosão da democracia dos Estados Unidos, a psicanalista Vera Iaconelli, que defende que somos feitos de palavras, e Fred Coelho, pesquisador da contracultura no Brasil, entre outros convidados.

Fonte: Folha de São Paulo