Padrões de conflito eleitoral na América Latina acendem alertas para o Brasil em 2026 - Romina Duarte/Agencia Press South/Getty Images

Porto Velho, RO - A democracia latino-americana entrou em estado de alerta. Eleições marcadas por violência política, judicialização extrema, contestação de resultados e militarização da segurança pública expuseram um padrão de desgaste institucional que se repetiu do México ao Chile.

O mais novo capítulo da tensão latino-americana ocorreu na madrugada de sábado (3/1), quando uma operação militar dos Estados Unidos em Caracas, na Venezuela, resultou na captura e prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. De acordo com o presidente Donald Trump, os EUA vão assumir interinamente o comando do país para conduzir um combate ao “narcoterrorismo”.

O tráfico de drogas tornou-se tema central em diversos países da região. No Equador, a escalada do narcotráfico conduziu o país a um pleito cercado de medo e presença militar. Daniel Noboa foi reeleito com o discurso de “guerra interna” e o uso das Forças Armadas como eixo central de campanha. A votação ocorreu sob denúncias pontuais de irregularidades, embora tenha sido validada por observadores internacionais.

Na Bolívia, a eleição rompeu um ciclo histórico do Movimento ao Socialismo (MAS), em meio à crise econômica, à fragmentação política e a acusações de instrumentalização do Judiciário. O papel das Forças Armadas voltou ao centro do debate, reacendendo memórias de instabilidade institucional.

O Chile voltou às urnas após dois processos constitucionais fracassados e anos de frustração política. O resultado marcou uma virada conservadora, impulsionada pelo cansaço social, pela insegurança econômica e pelo descrédito nas elites tradicionais.

Apesar das diferenças nacionais, o roteiro se repetiu por toda a América Latina. Para especialistas, não se trata de coincidência, mas de um padrão regional – com ecos diretos no Brasil, que, em 2026, volta a enfrentar um cenário de polarização política nas urnas.

Segundo Priscilla Mendes, doutora em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança na Universidade Federal Fluminense (UFF), ouvida pelo Metrópoles, a análise do ciclo eleitoral latino-americano de 2025 permite identificar sinais claros do clima político que tendem a se intensificar no país: militarização da segurança pública, judicialização de resultados e fortalecimento de narrativas autoritárias.

Militarização como eixo eleitoral

A militarização da segurança pública tornou-se central nas eleições latino-americanas de 2025, frequentemente acima da economia e das políticas sociais.

No Equador, a reeleição de Daniel Noboa consolidou uma agenda de “guerra interna” contra o narcotráfico, com militares nas ruas e ampliação de poderes excepcionais. O país se tornou símbolo de um modelo que ganha adeptos na região.

El Salvador, sob Nayib Bukele, associou popularidade política com encarceramento em massa e estados de exceção permanentes.

“A militarização se transforma em atalho político diante da incapacidade dos Estados de lidar com desigualdade, fragmentação institucional e crise de confiança”, avalia Priscilla Mendes. “Democracia e direitos passam a ser apresentados como entraves.”

Segundo a especialista, essa tendência não ocorre no vácuo. As tensões democráticas latino-americanas, aprofundadas em 2025, refletem também reordenamento estratégico patrocinado pelos Estados Unidos, que combina combate ao crime, controle migratório e alinhamento político agregado.


“A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos recoloca a América Latina no centro de um projeto hemisférico que reativa uma lógica de segurança. A soberania passa a ser respeitada apenas quando compatível com interesses estratégicos”, afirma.

O debate da segurança pública no Brasil

No Brasil, o debate já está em curso. Mendes observa que o país reúne sinais de que a lógica de guerra, militarização da segurança e definição de “inimigos internos” devem ocupar papel central na disputa eleitoral de 2026.

A megaoperação policial realizada em 28 de outubro de 2025, nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, ficou marcada como a mais letal da história recente do Brasil, com 121 mortes – entre elas a de quatro policiais – e trouxe à tona o debate da segurança pública às vésperas do ano eleitoral.

No Congresso Nacional, avançaram em 2025 o Projeto de Lei Antifacção (PL nº 5.582/2025) e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública.

Aprovado no Senado com apoio amplo, o texto do PL Antifacção, que prevê aumento de penas para integrantes de facções criminosas – chegando, em casos específicos, a até 120 anos de prisão –, agora retorna à Câmara, que já aprovou a PEC em comissão.

As análises, entretanto, foram adiadas pelos líderes partidários na Câmara dos Deputados para 2026.

As eleições na América Latina

  • Bolívia: Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, foi eleito como presidente e quebrou uma hegemonia de duas décadas da esquerda.
  • Chile: o direitista José Antonio Kast, do Partido Republicano, venceu as eleições presidenciais.
  • Equador: o direitista Daniel Noboa foi reeleito presidente.
  • Guiana: o político de esquerda Irfaan Ali, do Partido Progressista Popular/Cívico, foi reeleito como presidente.
  • Jamaica: o primeiro-ministro Andrew Holness, do Partido Trabalhista da Jamaica, foi reeleito para terceiro mandato.
  • Suriname: o Parlamento elegeu Jennifer Geerlings-Simons como a primeira mulher a ser presidente do país. Ela é do Partido Democrático Nacional, de esquerda.
  • Trindade e Tobago: Com a vitória do partido de esquerda Congresso Nacional Unido, Kamla Persad-Bissessar retornou ao cargo de primeira-ministra.

Eleições no tribunal

Outro sinal recorrente na política latino-americana em 2025 foi a judicialização extrema dos processos eleitorais.

Em Honduras, a apuração foi marcada por atrasos, acusações de fraude e pedidos de recontagem. Na Guatemala, disputas judiciais ameaçaram a estabilidade do governo eleito. Na Venezuela, a contestação de resultados alimentou uma crise política prolongada.

“Os tribunais viraram campos de batalha pós-urna”, resume Priscilla Mendes. “A contestação não começa depois do resultado. Ela é preparada antes, como estratégia política.”

No Brasil, o desafio nas eleições de 2026, segundo a especialista, não está apenas na apuração dos votos, mas em preservar a percepção de que o eleitor é o árbitro final.

“A democracia não se sustenta se as pessoas acreditam que o resultado está sendo decidido fora da urna. O risco maior não é apenas perder eleições, mas perder a confiança no próprio sistema que as legitima”, alerta.

Narrativas autoritárias

Na Argentina, El Salvador e Guatemala, discursos anti-institucionais, anti-mídia e anti-partidos ganharam espaço em campanhas e pronunciamentos oficiais.

No Brasil, ecos dessas narrativas já aparecem em discursos públicos de políticos de diferentes partidos, especialmente em setores alinhados à extrema direita.

“Autoritarismos não surgem do nada. Eles são reaprendidos e reinterpretados pelo contexto político, pelo cansaço social e pela crise institucional. Quando líderes incentivam retórica de força, violência ou exceção, eles não apenas mobilizam apoio, mas também transformam normas democráticas em algo contestável”, explica Priscilla Mendes.

No cenário de 2026, a especialista alerta que a normalização dessas narrativas pode reforçar polarização extrema, reduzir o espaço para diálogo e legitimar ações que desafiem a autonomia das instituições, criando um terreno fértil para candidatos que prometem “soluções fortes” e concentrações de poder.

Fonte: Metropoles