Países mantém aliança ideológica e refúgio como três das nações mais autoritárias e politicamente isoladas da região
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro15/09/2025 • REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria

Porto Velho, RO - Um enorme avião de carga pertencente a uma empresa russa sancionada pelos Estados Unidos por suposto tráfico de armas e transporte de mercenários esteve na América Latina no final de outubro.

De acordo com dados do site Flightradar24, a aeronave visitou três cidades: Caracas, Havana e Manágua, capitais de um conjunto que mantém sua aliança ideológica e seu refúgio como três das nações mais autoritárias e politicamente isoladas da região.

Em meio às tensões com os Estados Unidos devido ao seu destacamento militar no Caribe, a Venezuela, que perdeu diversos laços diplomáticos após as eleições presidenciais de 2024 — cujos resultados não foram reconhecidos por grande parte da comunidade internacional — recebeu forte apoio de Cuba e da Nicarágua.

No entanto, esse apoio de dois governos que têm sido alvo de uma série de sanções de Washington se limita, por ora, à retórica.

Os três governos não apenas compartilham uma aliança ideológica, mas também certas táticas e estratégias.

Nicolás Maduro, que assumiu o poder na Venezuela em 2013, Daniel Ortega, no poder desde 2007, e Miguel Díaz-Canel, que sucedeu Raúl Castro em 2018, implementaram ondas de repressão contra a dissidência, sufocando efetivamente a oposição.


Além disso, as três nações, em graus variados, vivenciaram migrações em massa nos últimos anos como consequência de suas situações políticas e econômicas.

“Existe uma aliança estratégica entre esses países; eles se enxergam como mutuamente necessários.

Cuba e Nicarágua veem a Venezuela como muito necessária, que, apesar da deterioração de sua economia, é a única com renda mais abundante”, disse à CNN o analista e professor Ángel Álvarez, doutor em ciência política pela Universidade de Notre Dame (Indiana).

Um eixo do século XXI


As relações se fortaleceram durante o primeiro mandato do falecido Hugo Chávez, que estabeleceu laços com diversos países caribenhos, aproveitando o boom do petróleo.
“Chávez construiu a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) e proclamou sua aliança com a Cuba de Fidel Castro em 2004, estabelecendo um eixo ideológico”, lembrou Kenneth Ramírez, presidente do Conselho Venezuelano de Relações Internacionais (COVRI), em entrevista à CNN.
Foram anos em que Chávez, juntamente com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente argentino Néstor Kirchner, se opôs à proposta da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) promovida pelos Estados Unidos.

O líder venezuelano também fundou a Petrocaribe, uma aliança regional de cooperação petrolífera com condições preferenciais.

A diplomacia petrolífera chavista declinou na última década em paralelo com a queda na produção nacional.

Atualmente, não há detalhes oficiais disponíveis sobre os embarques de petróleo bruto para a Nicarágua, enquanto os embarques para Cuba, que em seu auge atingiram 100 mil barris por dia, caíram nos últimos anos para uma média de 20 mil, com uma recuperação prevista para 2025, de acordo com relatórios mensais da Reuters.

Para Ramírez, os laços não enfraqueceram, mesmo que o apoio econômico de Caracas não seja o mesmo de antes.
“O petróleo tem menos peso em comparação com os anos Chávez. (...) Ainda é importante, e Maduro está tentando tirar o máximo proveito disso”, afirmou.
O analista destacou que “a deriva autoritária da Venezuela e da Nicarágua tem apresentado semelhanças, e ambas têm Cuba como ponto de referência”.

Ele acrescentou que os laços permanecem fortes porque existe uma “identidade ideológica”.
Parceria de mais de 20 anos

Eduardo Valero Castro, professor de Estudos Políticos da Universidade Central da Venezuela, destacou que a aliança possui “laços muito sólidos construídos ao longo dos últimos 20 anos”, com “sentimentos doutrinários envolvidos”, embora tenha observado que países como o Brasil e a Colômbia, com governos de esquerda e que se distanciaram da Venezuela em 2024, agora demonstram sinais de apoio.
“Como resultado das movimentações militares do governo dos EUA no Caribe, despertou-se um tipo de sentimento latino-americano que, por vezes, atenuou a demanda política e jurídica pelo reconhecimento do resultado das eleições de 2024”, disse ele à CNN.

Fonte: CNN Brasil.